Jornal O Diário

Segunda-Feira, 22 de Dezembro de 2014

Última atualização:04:00:00 AM GMT

Você está no canal: CIDADES ELEIÇÕES Falta conscientização ambiental

Falta conscientização ambiental

REPORTAGEM: MARIA SALAS

 

Na era do consumo desenfreado, administrar o lixo produzido pela humanidade é tarefa cada vez mais complexa. Talvez, o maior desafio ambiental. Um assunto que deve ser encarado como uma das principais prioridades do futuro administrador de Mogi das Cruzes. Por mês, de acordo com a Secretaria Municipal de Serviços Urbanos, a Cidade coleta 9 mil toneladas de lixo úmido e cerca de 170 toneladas de lixo seco, que são levados para o Centro de Triagem. Os números que impres-sionam. O lixo domiciliar é recolhido por meio de dois sistemas públicos de coleta - convencional e seletiva -, mas que não tem um destino correto, já que ainda se manda os detritos para aterros. Uma situação difícil de ser administrada, mas não impossível na opinião de especialistas do setor, moradores e comerciantes. E em um ponto, todos concordam: é preciso que o cidadão se conscientize mais sobre os seus atos para poder exigir uma cidade mais limpa.

A gestora ambiental Anita Goldmann Amaro, de 38 anos, ressalta que o lixo é de fato um “lixo”: “Acredito que o lixo é um problema da má educação da população em geral e um problema de ingerência pública. Os passos dados até o momento foram de formiguinha, e o resultado, mesmo que ele seja razoável, não se apresenta da noite para o dia. A Prefeitura tem de apresentar propostas efetivas e abrangentes e a comunidade tem de se educar. Educar no sentido de saber escolher os produtos que se compra também pela embalagem, reduzindo a quantidade gerada de lixo e evitar desperdícios, praticar de fato a seleção do lixo”.

Comerciantes que atuam na área central de Mogi, ouvidos pela reportagem durante a se-mana, são unânimes ao afirmar que não há do que se reclamar quando o assunto é a limpeza urbana no Centro. Entretanto, a vendedora de uma loja de roupa infantil, que preferiu não se identificar, comenta que o que ela mais vê é cliente jogando papel no chão: “Parece até mentira, mas não é. E olha que contamos com lixeiras à disposição da clientela”. E Márcia Domingues, de 44, proprietária de uma loja de moda feminina, enfatiza que nem sempre foi assim. “Já foi pior, viu! Mas de alguns anos para cá muita coisa mudou. Como eu moro no mesmo endereço em que trabalho, e passo a maior parte do meu tempo por aqui mesmo [no Centro], não sei como se encontram as ruas dos Bairros e Distritos da Cidade”, questiona Márcia.

Pelos bairros

Quem explica como anda a situação dos Bairros, quando o assunto é limpeza pública, é a dona de casa Kelly Cristina Soares, de 34. Moradora do Bairro São João, ela postou, inclusive, a sua indignação na sua página no Facebook, da rede social, nesta semana. “Olha, eu não sei onde foi parar o serviço público de limpeza das ruas. Há três semanas colocaram fogo em um sofá, no meio da calçada, e a sujeira está aí no mesmo lugar. Isso sem falar do lixo que o lixeiro, quando faz o serviço de qualquer jeito, deixa cair no chão, ficando por isso mesmo. E, agora, em época de eleição, quem deveria dar o exemplo faz pior e emporcalha a Cidade com o seu material de campanha”, desabafa Kelly, que emenda: “Engraçado que cobrar e dar multa para quem não faz a calçada padrão isso eles [a Prefeitura] fazem bem, para isso há fiscal”.

Também revoltada com a situação em que se encontra o bairro em que mora, a Vila Suíssa, a advogada Anelise de Siqueira, de 33, explica que, apesar de o lugar contar com o serviço de coleta seletiva e a presença de catadores de lixo nas ruas, o mais complicado é a limpeza das ruas. “Verifico a existência de um analfabetismo ambiental dos populares. O lixo nas ruas não só deixa a Cidade mal vista, como também a prejudica a partir do momento em que um simples papel jogado no chão pode causar o entupimento do esgoto e, consequentemente, uma enchente”.

Exemplo

Ao passar pelo Condomínio Parque Residencial João XXIII, em César de Souza, onde reside a professora Fabiana Aparecida Arias da Silva Costa, de 37, logo se percebe que ali existe uma consciência ambiental. O motivo: as lixeiras coloridas para o descarte correto do lixo chamam a atenção. Apesar disso, segundo o subsíndico Raul Leite Pinto, de 43, ainda há muito a fazer no local, pois os mais de 2 mil moradores do local, distribuídos nos 624 apartamentos, ainda não se conscientizaram sobre a importância da coleta seletiva. A professora Fabiana enfatiza que o que falta é mais educação por parte da população. “Mesmo com toda essa oportunidade, há pessoas que ainda deixam sacos com lixo no meio do condomínio ou não o separam. É lamentável!”.

Edgar Passos (PSTU)

A limpeza pública em Mogi das Cruzes também é tratada como negócio. O serviço é operado pelo mesmo grupo que controla o transporte. O contrato estabelecido em 2010 prevê o repasse de R$ 146 milhões em 5 anos. Enquanto isso, trabalhadores do setor recebem baixos salários e convivem com condições de trabalho precárias que levam a acidentes, como o ocorrido em agosto deste ano que levou um trabalhador à morte. Ao mesmo tempo, menos de 2% do lixo é reciclado, e o padrão de consumo e produção irracional impulsionada pelas empresas, nos leva a uma situação insustentável que questiona o próprio capitalismo. Mas uma política consequente para o lixo começa retirando esse serviço das mãos das empresas, constituindo uma empresa 100% pública, que dê a destinação adequada aos resíduos sólidos e garanta condições dignas de trabalho.

Fernando Muniz (PPS)

Sempre venho dizendo que um prefeito não consegue nada sem o apoio da população, por isso o passo inicial do meu governo será promover uma ampla e permanente campanha de conscientização para que a população faça a sua parte, não sujando as ruas e descartando o lixo de maneira correta. Pretendo manter a atual empresa responsável pela coleta do lixo e limpeza das ruas, dando uma atenção maior para as áreas mais afastadas. A questão da limpeza está diretamente ligada à coleta de resíduos na Cidade, portanto, pretendo implantar um amplo programa de coleta seletiva que, com o apoio dos moradores, irá funcionar em toda Mogi. Tal medida tem por objetivo reduzir em 50% a geração de nossos resíduos. Aliado a isso, criarei duas cooperativas responsáveis pela triagem e venda de todo o material reciclável.

Jorge Paz (PSOL)

A limpeza pública é um enorme desafio. É preciso rever contratos e fiscalizar de forma eficiente a prestação de serviços que é realizada hoje por empresa terceirizada. O maior desafio é garantir que o serviço de limpeza de ruas e de coleta de lixo ocorra de maneira adequada em todos os bairros e não apenas na região central. É preciso uma fiscalização que impeça o depósito irregular de lixo, que obrigue a adequação de espaços e equipamentos para o armazenamento até a coleta. Hoje encontramos amontoados de sacos, muitas vezes vindos de empresas e comércios, que ocupam espaço nas calçadas e impedem o trânsito dos pedestres. É preciso garantir a varrição das ruas de maneira adequada, em todos os bairros, e impedir situações, como as que já presenciamos, de utilização de jato de água para empurrar a sujeira para os bueiros.

Marco Bertaiolli (PSD)

Graças à conscientização dos mogianos e de uma forte cobrança e fiscalização da Prefeitura sobre a empresa responsável pela limpeza pública, Mogi está mais limpa e bonita. Além disso, na concorrência pública que fizemos para contratar a empresa responsável pelos serviços, incluímos a exigência de a vencedora apresentar uma frota renovada e ampliada de caminhões, máquinas e equipamentos. Esse conjunto de medidas permitiu garantir a eficiência e a ampliação dos serviços. Melhorou muito, mas ainda temos muita coisa para fazer, principalmente nos bairros. Além disso, não podemos esquecer a busca de uma solução correta para o lixo, com a implantação de uma usina de incineração e geração de energia, em parceria com a Sabesp, e a ampliação da coleta seletiva com a ajuda da cidade japonesa de Toyama.

Marco Soares (PT)

Vou ampliar o sistema de limpeza pública, fazendo com que a varrição das vias e a limpeza de córregos, canais e terrenos baldios sejam efetivas em todos os cantos de Mogi. O cumprimento do Plano Nacional de Resíduos Sólidos vai nos garantir recursos junto ao governo Dilma Rousseff (PT) para oferecer boas soluções para o destino do lixo. Uma delas é a Usina Verde, com a qual vou implantar a coleta seletiva de fato em toda a Cidade. Vou criar políticas públicas de educação ambiental para conscientizar a população sobre a importância da reutilização, separação e destinação adequada dos resíduos. Outro foco será a implantação de programas de geração de renda que incentivem a coleta de recicláveis em comunidades de baixa renda. A minha meta é construir uma cidade mais limpa formada por cidadãos conscientes.

Mário Berti (PCB)

A primeira medida que vou tomar é fazer a revisão no contrato de lixo de limpeza pública da Cidade. Outro passo, igualmente importante, é conscientizar a população sobre a importância da coleta seletiva por meio de campanhas educativas, pois, somente assim, a coleta seletiva irá funcionar de verdade. Essa coleta que há, atualmente, é mentirosa e fajuta, e contribui, apenas, para que os munícipes, que fazem a sua parte, separando o lixo que pode ser reciclável, se irritem, pois o pessoal da coleta mistura tudo no mesmo caminhão. A implantação da Usina Verde também será uma alternativa para o tratamento correto dos resíduos sólidos. Aumentar o recolhimento do óleo vegetal (de fritura), trabalho que vem sendo feito por meio da ONG Guerrilheiros do Itapeti, em que chegamos a recolher 2 mil litros de óleo por semana, também está entre as minhas metas.

Mogi terá usina para o lixo

O lixo domiciliar gerado em Mogi das Cruzes é recolhido por meio de dois sistemas públicos de coleta: convencional, cujo destino é um aterro licenciado, e seletivo, destinado ao Centro de Triagem. Por meio de nota, a Secretaria de Serviços Urbanos informa que os cerca de 170 toneladas (mês) que o Município coleta é separado pela população. “Existe a capacidade, por parte da Prefeitura, de ampliar os índices de coleta seletiva, mas isso depende diretamente da mobilização dos cidadãos, no sentido de que mais famílias passem a separar seu lixo seco”. Ainda de acordo com a nota, a atual administração investe em campanhas de sensibilização e projetos como a parceria com a cidade de Toyama, no Japão, que é um exemplo mundial na questão da destinação dos resíduos sólidos.

A coleta de lixo, dividida entre dias para a coleta de lixo úmido e lixo seco (reciclável) e de varrição, é de responsabilidade da CS Brasil, do grupo JSL. São mantidas iniciativas como a Operação Cata-Tranqueira, que percorre os bairros três vezes por ano e recolhe materiais inservíveis, e dois Ecopontos, localizados na divisa entre o Jardim Armênia e César de Souza e no Parque Olímpico. Estes dois locais podem receber diversos materiais recicláveis descartados pela população, inclusive entulho de construção civil.

Da parceria firmada com Toyama, deverá ser desenvolvido um programa com as alternativas apontadas por técnicos da cidade japonesa para melhorar o sistema atual.

Está em elaboração, o Plano Diretor de Resíduos Sólidos, que apontará diretrizes para a destinação de todo o lixo. Este documento, em fase de finalização, servirá como base para que a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) apresente um projeto para a implantação de uma usina de incineração e geração de energia elétrica na Cidade. A licitação deve ser aberta em 2013 e o local do empreendimento está indefinido. Todo esse trabalho será feito a partir de um consórcio firmado com as prefeituras de Arujá, Biritiba Mirim, Guararema e Salesópolis.