CAROLINE LOPES
A maioria dos entrevistados por O Diário é favorável à liberação do funcionamento dos bingos, conforme prevê projeto de lei que tramita na Câmara dos Deputados. Como principais argumentos está a geração de empregos e de tributos. Já os contrários à ideia, sustentam que, além de alimentarem o vício do jogo, as casas de bingo estão atreladas ao tráfico de drogas, lavagem de dinheiro, contrabando, sonegação fiscal, entre outros crimes.
Presidente do Conselho Municipal do Idoso, o padre Vicente Morlini defende a reabertura dos estabelecimentos. "É uma diversão comum, mas é preciso fiscalização e programas na área da saúde que combatam o vício. Conheço gente que, por causa do jogo, acabou com o dinheiro da família. É uma dependência psicológica comum entre os idosos. Por isso defendo o programa de combate ao vício", disse Morlini, acrescentando que o Município conta com cerca de 36 mil habitantes com 60 anos ou mais.
Deputado federal, Valdemar Costa Neto (PR) não apenas defende a liberação dos bingos como é autor de parágrafos que compõem a atual proposta de liberação (o deputado federal Régis de Oliveira, PSC, de São Paulo, é o autor do atual projeto substitutivo) que trata sobre o tema.
"Sou totalmente a favor. Estamos numa democracia e nada justifica a proibição. Além disso, de uma hora para outra, milhares de pessoas foram jogadas ao desemprego. Acho uma judiação", disse ele, por meio da Assessoria de Imprensa.
O deputado estadual Luiz Carlos Gondim Teixeira (PPS) também tem a mesma opinião, mas defende algumas imposições aos donos de bingos. "É preciso limitar o número de fichas aos aposentados. Uma parte da arrecadação, entre 10% e 20% teria de ser destinada a entidades sociais na área da saúde e esporte. Sou contra as máquinas caça-níquel, mas é melhor que elas fiquem dentro de bingos regularizados do que dentro de bingos clandestinos. Mas o empresário tem que fazer tudo certo, emitir nota fiscal, declarar à Receita", diz.
Outro com cadeira no Palácio Nove de Julho é José Cândido (PT) que é a favor da liberação. "Mas desde que haja intensa fiscalização para evitar, principalmente, a lavagem de dinheiro", diz.
Nabil Safiti (DEM), presidente da Câmara, gostaria que a autorização do funcionamento se estendesse aos cassinos. "Sou a favor, mas tem de pagar imposto para a saúde e para o esporte. Porém, como o projeto prevê que os bingos têm de estar a mais de 500 metros de igrejas e escolas, não acredito na viabilidade em se instalar bingos em Mogi. Mas não entendo o porquê de não liberarem os cassinos. Os brasileiros vão para a Argentina, para o Paraguai, gastar dinheiro em cassino. Por que deixar ir para lá tantas divisas?".
Diretor financeiro da União dos Aposentados e Pensionistas de Mogi das Cruzes (Uapemc), Osnir Batista acredita que a proibição dos bingos não é capaz de evitar o jogo, que é executado de maneira clandestina. "O vício é uma doença. A pessoa acaba procurando estabelecimentos clandestinos, o que é ainda pior. Com a regularização, pelo menos existe um certo controle".
Batista revela que é alto o número de idosos que dependem do jogo. "Já vi muita gente perdendo dinheiro. Conheço uma pessoa que foi candidato a vereador e conseguiu US$ 10 mil para a campanha. Perdeu tudo no bingo e não se elegeu".
Virtual candidato a deputado federal e ex-prefeito do Município, Junji Abe, que está em vias de trocar o PSDB pelo DEM, é outro a favor dos bingos.
"Sou favorável à legalização desse tipo de atividade, exclusivamente, em função de dois aspectos: primeiro, porque o projeto prevê que parte do faturamento bruto das casas de bingo seja destinada a programas esportivos, culturais e ações de saúde; e segundo, porque possibilitará a geração de empregos. Porém, faço a ressalva de que esses estabelecimentos sejam fiscalizados com pleno rigor".
O prefeito Marco Aurélio Bertaiolli (DEM) observou que a decisão referente aos bingos é de âmbito federal e os municípios pouco podem intervir. Ainda assim, ele defende estudos mais amplos sobre a permissão deste tipo de jogo, com base na opinião de que os bingos não devem ser liberados totalmente, mas também não devem ser proibidos de forma radical como é a situação atual.
Segundo o prefeito, alguns critérios devem nortear este tipo de atividade, como o controle on-line dos jogos pela Receita Federal; definição dos percentuais de arrecadação pela Receita Federal e a destinação que será dada a ela, além da localização. "Não acho que deva ser permitido o bingo em todos os municípios. É preciso avaliar vocação ou mesmo municípios que são turísticos", opinou, sem comentar se Mogi das Cruzes se encaixaria nos locais em potencial.
Bertaiolli destacou a importância da geração de empregos, mas lembrou que muitas vezes os problemas também são tantos que excluem os benefícios. "Mas não sou a favor desta proibição total", frisou.
Nabil Francisco de Moraes, integrante da regional mogiana da Central Única de Trabalhadores (CUT) e do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp) é contra a iniciativa. "Acho que é um retrocesso porque é um jogo de azar que expõe pessoas frágeis, como aposentados, ao vício. Não existe nenhum benefício e, além disso, há muitos donos de bingos que usam de mecanismos para lavar dinheiro".
Comandante do 17º Batalhão da Polícia Militar, Paulo Roberto Madureira Sales é contrário à liberação. "Enquanto estiver ilegal, nenhum bingo vai funcionar em Mogi. Se a lei liberar, aí é outra história. Mas digo com 100% de certeza que existe uma relação entre o funcionamento dos bingos e alguns crimes, como lavagem de dinheiro e contrabando".
Prefeito de Suzano, Marcelo Candido também é contra. "Eu sou contrário aos jogos de azar. Existe uma estrutura em torno dos bingos - não em todos os casos é óbvio, não estou fazendo aqui nenhuma acusação - estreita com o crime organizado. E os jogos de azar, em geral, têm uma capacidade muito grande de viciar os usuários, como os aposentados, muito vulneráveis. Não deve liberar, nem a pretexto de gerar empregos".