Comprei a passagem de ônibus com três dias de antecedência, para garantir meu assento junto à janela. Mas quando embarquei, em São Paulo, com destino a Curitiba, ela estava sentava em meu lugar. Não lhe disse nada. Nem poderia, pois além de mulher, tinha os cabelos brancos e viajava sozinha.
Na partida do ônibus, com a janela fechada, acenou e gritou, para o lado da plataforma:
-Tchau, filha!
Nem bem saímos da rodoviária, pareceu-me que num ato de rebeldia e transgressão às normas dos filhos, arrancou o lenço da cabeça, escancarou a janela, tirou os grampos dos cabelos, que livres voaram soltos e brancos ao vento.
Passara o mês com a Rosângela, a filha que mora em São Paulo. Agora ia embora, repartir-se, mensalmente, por esses Brasis, entre seus onze filhos paridos, criados e casados. Em Uruguaiana, só estaria depois de passar, primeiro, em Curitiba, com o Renato, aquele filho que tomou coice de cavalo quando era pequeno; após ficar um mês em Maringá, com o Rafael, que estava bem de vida, graças à sua plantação de soja; também não poderia deixar de ir visitar o Rodrigo, que tem um hotelzinho em Florianópolis, bem ali de frente à Lagoa da Conceição e acaso eu aparecesse, por lá, estava convidado para tomar um café com ela ou com seu filho tão amado, que é gente boa como ela mesma; aí seguiria a Caxias do Sul, para ajudar a filha Rosalina e o genro fazerem vinho...
Uruguaiana, sua terra, na divisa do Brasil com a Argentina, que esperasse por ela. Por estes meses, que já não sei quantos, ela estaria em trânsito em viagens com farnéis fartos de carnes assadas, de boi, galinhas e carneiros. Também não lhe faltavam bolo, pão, bolachas, tortas e polenta frita, dentro das sacolas.
Recostei-me melhor no banco que me restara, certo de que, um dia, ela chegaria a Uruguaiana rebocada pela sua cuia e bomba de mate, e talvez até vendesse a casa, que agora não lhe servia para nada. Entretanto, antes, ela passaria um mês com o Ronaldo, aquele que, quando era mocinho, assoprava pó-de-mico no baile, só para rir de ver as pessoas se coçarem.
Também não deixaria de ir visitar o Ricardo, seu filho caçula, mesmo sabendo que impacientava a nora com aquela sua mania de tomar banho de maga, que dura mais de hora, consumindo latas, chaleiras e caldeirões de água quente, para encher a banheira, onde ela submerge e esfrega, demoradamente, todas as estradas percorridas. E se tinha os cabelos brancos tão brilhantes era porque sempre os enxaguava com água azulada de anil. E minhas narinas não podiam estar enganadas, perfumava-se com água-de-cheiro e, em seguida, brindava o corpo com talco, que também sobrava pulverizado sobre a água esparramada no chão, em que a neta brincava ao seu lado:
-Vó, canta aquela música!
-Vó, declama Juca Pirama!
-Vó, o que tem nesta sacola?
A menina encantava-se com sua chegada, seguida de sacolas, sacolões e bolsinhas escondidas em malas, e ela não conseguia negar os pedidos daqueles dois olhinhos azuis e curiosos, puxados aos dela, que eram mansos como dois lagos encravados no rosto. Por isso, mesmo que tivesse de engolir alguns sapos da nora, depois de ter viajado tanto, não deixaria de ir ver aquela sua netinha.
Gostava de viver assim. Há vinte e dois anos levava essa vida meio cigana. Depois de viúva e sessenta e dois anos plantados na roça, descobrira que a vida é viagem e ainda não era tarde, para aproveitar a oportunidade de viver cada mês numa cidade.
Talvez porque temesse que eu reclamasse pelo meu assento, durante todo o percurso, ela me evitou. Mas, quando chegávamos a Curitiba, ela puxou conversa. Então, não lhe respondi. Fingi estar dormindo. Não queria ouvi-la. Melhor que permanecesse muda. Continuasse me temendo, para não quebrar o encanto desta história, que imaginei durante nosso silêncio, enquanto aqueles seus cabelos brancos, soltos e rebeldes estavam em viagem.