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  • CRÔNICA - MAURICIO DE SOUSA

  • Engraxate meio-dia

     Seria meu primeiro "emprego".

    Eu devia ter uns seis anos.

    Papai convenceu mamãe de que estava na hora de eu aprender alguma atividade para ajudá-lo. Ele tinha um salão de barbeiro bem ao lado do velho mercado. E precisava de um engraxate.

    E numa certa manhã, saí com meu pai para trabalhar. De botinhas com muitos botões, paletó de veludo preto, feito sob medida pela minha mãe, camisa de seda (também costurada por ela) com punhos de renda e com nome bordado. Um luxo só.

    No salão, bonito, cheio de espelhos de cristal e mármore italiano, antes que chegassem os primeiros fregueses, vieram as "aulas" de como eu deveria agir.

    Papai me mostrou as latinhas redondas de graxas marrom e preta, como abri-las sem fazer sujeira, a escova que espalhava a graxa, o trapo cortado de comprido que serviria para ser esfregado com força nos calçados até que estes "cantassem", o truque da cuspidinha no couro, para dar mais brilho, as tintas escuras, para disfarçar o puído do couro e a "embalagem" disso tudo: uma bela caixa de engraxate, com um "pedalzinho" na parte superior para o descanso do pé do cliente.

    Eu teria que engraxar os sapatos enquanto o freguês cortava os cabelos. Depois, quando ele se levantasse, eu deveria subir num banquinho e escovar os ombros dele.

    Dei uma treinadinha com meu pai e já foi chegando o primeiro cliente.

    Não foi tão difícil engraxar. Difícil era o paninho "cantar" no sapato brilhante. Eu ainda não tinha muita força. Mas foi tudo bem. Durante umas três engraxadas mais a espanadinha no ombro.

    Chegou a hora do almoço. E do acerto de contas. Papai explicou que cobrava quatrocentos réis dos clientes, por uma engraxada. Deste total, me daria um quarto (um tostão).

    E voltamos pra casa. Eu meio contrariado. Mamãe percebeu. E eu desabafei: não concordava com aquela divisão: como é que eu recebia só um tostão se o serviço todo era meu? E depois, aquilo de subir num banquinho para escovar ombros cheios de cabelos eu achava um desaforo. O freguês que passasse as próprias mãos, horas! Eu não ganhava nada por isso. Já bastava engraxar. Papai ficou meio cismado com minha avaliação, mas a mamãe veio em meu socorro e decidiu que ainda era cedo para tantas responsabilidades. Principalmente porque eu já estava desafiando sistemas vigentes. E ela não queria conflitos entre os homens da casa.

    Tirei a roupa de missa e mergulhei, a partir daquela mesma tarde, em mais alguns anos de brincadeiras de rua.

    Mauricio de Sousa

    06.09.1996

     

     

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