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  • CRÔNICA - FERNANDO CATELAN

  • Esquema

    Esquema era um homem que, ainda jovem, prosperara a custa de muito esforço. Suas predileções? Frequentar a praia do Gonzaga em Santos para mordiscar aquele camarãozinho e beber cerveja com os amigos, e, é claro, santista roxo que era, assistir àquelas partidas épicas do Santos de Pelé na Vila Belmiro.

    Gumercindo era o verdadeiro nome de Esquema, um apelido que caiu como uma luva sobre a figura daquele jovem milionário que, na cancha, mostrava uma inclinação que inquietava os mais chegados – andava de um lado a outro pelas laterais do campo como se tomado de um frenesi, ditando aos jogadores na fala rouca e nos gestos tresloucados o posicionamento tático que, na coreografia que tão só em sua mente se desenhava, a postura tática que o alvinegro praiano deveria assumir.

    Às vezes, nosso personagem era ouvido, outras nem tanto, mas o que isso importava se na casa suntuosa em que vivia com a linda esposa e os três filhos maravilhosos, aplicados que Deus lhe dera os esquemas que ditava eram sempre apreciados, acolhidos de ouvidos atentos naquele seio tão fraterno à sua alma:

    -         Gumercindo, acho que você deveria parar de trazer os jogadores do Santos em nossa casa... – ponderava a dedicada esposa

    -         Você vive sempre implicando, não é, Neusa?

    Na verdade, Neusa queria tão somente livrar-se daquele assédio discreto que para si convergia partido daquele jogador de maneiras particularmente finas, de trato irrepreensível, e, para cúmulo do malogro de Gumercindo, um conquistador dentro e fora das quatro linhas.

    Certa tarde, uma segunda-feira de folga no Santos e dia de muito trabalho na unidade de processamento de pescado de propriedade de Gumercindo, este, talvez pelas densas emoções vividas na véspera quando da derrota do Santos para o Flamengo em pleno Urbano Caldeira, decidiu por algo que jamais, em toda a sua vida de empresário, fizera. Foi até seu gerente e disse-lhe em tom lacônico:

    -         José, até o fim do expediente você toca o barco... Vou voltar para casa...

    Pretendia Gumercindo, aos chamegos de sua Neusa, refazer-se das terríveis cólicas estomacais que do nada passaram a assolá-lo. Chega em sua mansão e, sem fazer barulho, vai até seu quarto, palco de tantos momentos de amor, e o que assiste deixa em sua alma uma marca indelével:

    -         Neusa!!!

    Desgostou-se a tal ponto Gumercindo em flagrar sua diva em pleno coito com aquele jovem ídolo dos gramados, que não bastou-lhe separar-se da mulher, ficar com a guarda dos filhos. Precisava transmutar-se em outro papel e encarnou como personagem o popular Esquema, já indigente ditando esquemas táticos em gramado distante, com a alegoria do saco de amendoim que deixava ao lado sem vender, largado à beira do alambrado no calor da partida.

    FIM

     

    Comentários do autor:

    Esta é uma biografia não autorizada do popular "Esquema", torcedor dos mais apaixonados dos anos 80 e 90, verdadeiro coreógrafo das estrelas que só ele, na total entrega ao sonho que lhe era própria, soube encarnar.

    Ao final destas linhas, rendamos tributo à memória de quem, ainda que desprezado pelo quê de exótico, pela divergência em relação à dita normalidade, brindou os campos da Casarejos e da Vila Industrial com alegorias de pura magia.

    Quisera todos que passaram pelo União F.C. tivessem pelo clube a paixão que Esquema devotava com o coração`à nossa Serpente do Tietê, coração, que, afinal, descansou na morte triste dessa figura jamais então a tal solitária, transcorrida, segundo se diz, no interior paulista.

     

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