Lá em casa, emoldurado, está o meu retrato aos nove anos. Foto em preto-e-branco, único recurso fotográfico existente na época, quando ser fotografado era coisa rara. Naquele tempo, aparecia o fotógrafo na escola e fotografava toda a meninada. A pose era sempre a mesma: cada aluno sentado numa carteira escolar, tendo o mapa-múndi, ou a bandeira brasileira como adorno e um mapa do Brasil de fundo. E assim estou eu: cabelo penteado, sorriso nos lábios, caneta na mão direita e um livro qualquer na esquerda. No bolso da minha camisa branca de uniforme distinguem-se três listas da minha graduação escolar de terceiro ano do curso primário.
Tenho ternura por mim naquela foto de menino. Acredito na filosofia: o menino é o pai do homem. Portanto, aquele menino é meu pai. Sou filho dele. Resultado do que ele fora. Ele com mais coragem de ir e matar dragões, mais herói, mais ternura. Eu mais velho, menos terno, mais covarde e mais cansado.
O homem que hoje levanta, vai à dispensa, destampa o vidro do melhor biscoito da casa e serve à exigente gata, não sou eu. – É o menino. Também não sou eu o caminhante para velhice quem ama, briga e discursa pelos idosos, mas sim o menino de amor profundo pela avó.
Tenho meus cansaços. O menino me ordena sonhos. Hoje aceito, concordo, concilio. Ele me obriga a transgredir. Seguir em frente...
Não sei se rio ou sinto afeto quando concluo que três anos e meio depois dessa foto, o menino, então adulto biologicamente, andava mais de 10 km, com sapato furado, bolha grande na sola do pé, para se deitar com uma mulher, três vezes mais velha, que o aceitava como homem. Ele julgava amá-la. Talvez amasse. Amar faz parte da radiografia do menino.
Esse simulacro do infante, em preto-e-branco, para mim, representa mais do que o aspecto exterior registrado. Instalado numa prateleira da sala da minha casa, ele me vigia, impõem-me comprometimentos, guia-me. É quase um ídolo a me determinar continuidade, esperança e alento. Entretanto, se me fosse permitido voltar àquele tempo de menino, não aceitaria esta possibilidade. Rejeito até mesmo alguns anos a menos. Cada idade tem seu encanto. Para mim, basta-me o legado deixado por ele.
Para finalizar, tenho a declarar: - não ser eu, mas o menino, melhor de mim, que deseja a todos coragens e sonhos em todos os dias da vida. Ao mundo só ambiciono que cada um saiba ouvir a criança que um dia fora!